Colapso do Ueno Bank: Entenda a crise financeira que paralisou o Paraguai e abalou o governo
O sistema financeiro paraguaio enfrenta uma de suas piores crises dos últimos anos após a intervenção e suspensão imediata das operações do Ueno Bank, maior banco digital do país. A medida atingiu cerca de 3 milhões de clientes, quase metade da população de 6,1 milhões de habitantes, gerando pânico generalizado, protestos nas ruas da capital, Assunção, a renúncia do presidente do Banco Central e desdobramentos políticos que ameaçam o próprio presidente da República.
O que motivou a intervenção e quais foram as causas?
A crise do Ueno Bank explodiu após o Banco Central do Paraguai (BCP) identificar severas irregularidades operacionais e de capital:
Déficit crítico de capital (Insolvência): O BCP constatou que o índice de solvência da instituição despencou para menos de 50% do mínimo exigido por lei, deixando o banco sem margem de segurança financeira para absorver prejuízos acumulados.
Gestão temerária e conflito de interesses: Investigações apontam que o banco realizava empréstimos irregulares acima dos limites permitidos a empresas vinculadas aos seus próprios controladores (Grupo Vázquez).
Crescimento acelerado descontrolado: De uma financeira tradicional, a instituição transformou-se em banco digital e expandiu agressivamente sua base com cartões de crédito e serviços populares, operando sem a devida robustez patrimonial para sustentar a escala.
Alta concentração de recursos públicos: O Ueno mantinha sob custódia entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em verbas de órgãos públicos, dos quais mais de US$ 350 milhões pertenciam ao fundo estatal de previdência e saúde (IPS), colocando até o pagamento de aposentadorias sob risco.
O efeito cascata e o impacto imediato
A suspensão repentina das atividades provocou uma onda de choque na economia e nas instituições do país:
1. Paralisação econômica e desespero popular: Correntistas viram seus saldos zerados ou bloqueados no aplicativo, gerando filas gigantescas, correria às agências e protestos severos em Assunção.
2. Prisões da cúpula da instituição: A Justiça paraguaia determinou a prisão de oito altos dirigentes do banco, incluindo o presidente da instituição, Miguel Vázquez, sob acusações de gestão fraudulenta.
3. Renúncia do presidente do Banco Central: O presidente do BCP, Carlos Carvallo, pediu demissão após pressão pública e do governo. Carvallo presidiu a antiga financeira Ueno antes de assumir o comando do Banco Central em 2023, levantando suspeitas de vista grossa na fiscalização.
4. Crise política no governo Peña: O presidente paraguaio, Santiago Peña, foi acionista do Grupo Vázquez até 2025. A oposição no Congresso anunciou articulações para abrir um processo de impeachment, acusando o governo de canalizar verbas públicas para o banco e afrouxar mecanismos de controle anticorrupção.
O que acontece a partir de agora?
A condução da crise entra em uma fase crítica dividida em três frentes principais:
1. Processo de Resolução e Devolução do Dinheiro
O Banco Central nomeou interventores para verificar os ativos remanescentes. O sistema de fundo garantidor do Paraguai prevê teto de cobertura de até 228,3 milhões de guaranis (cerca de US$ 38 mil) por correntista, o que deve cobrir integralmente até 97% dos pequeno depositantes. Um pagamento emergencial inicial de até 10 milhões de guaranis já começou a ser desenhado, mas grandes depositantes e fundos públicos ainda enfrentam incertezas sobre o resgate total.
2. Ações Judiciais e Apuração Criminal
O Ministério Público paraguaio segue analisando denúncias e documentos de auditoria para processar criminalmente executivos e acionistas por eventuais crimes financeiros, fraude e desvio de fundos públicos.
3. Impacto na Imagem e no Mercado
Embora o Banco Central tente afastar a tese de risco sistêmico sobre os outros bancos, o colapso do Ueno Bank acende um alerta vermelho sobre a governança bancária e a supervisão regulatória no Paraguai, testando a confiança dos investidores internacionais no país.
