O Paradoxo na Saúde de Conquista: Rodrigo Hagge Assume a Pasta em Meio a Discursos de Independência e Necessidade de Pontes com o Estado
A nomeação do ex-prefeito de Itapetinga, Rodrigo Hagge, para o comando da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista, anunciada pela prefeita Sheila Lemos, acendeu um debate político e administrativo na terceira maior cidade da Bahia. O movimento, fruto de articulações e acertos políticos regionais, coloca na gestão do SUS de um dos principais polos de saúde do estado uma figura cuja trajetória política recente traz fortes declarações de confronto com o Governo do Estado.
Com a reconfiguração da pasta, a enfermeira Lorena Almeida, que geria a Secretaria interinamente há mais de cinco meses, passa a atuar como subsecretária. Contudo, a escolha do titular traz à tona um dilema central: como um gestor que afirmava não precisar do apoio estadual irá conduzir a saúde pública de um município que depende umbilicalmente da integração regional e de pactuações com o Governo da Bahia?
De “Não Precisa de Governador” ao Desafio do Terceiro Maior Município da Bahia
Em registro em vídeo durante sua gestão à frente da Prefeitura de Itapetinga, Rodrigo Hagge adotou um tom enfático de autossuficiência. Na ocasião, ao comentar a perda de investimentos e criticar a atuação da gestão estadual, o ex-prefeito disparou:
“Ficou provado que prefeito que trabalha, prefeito que tem responsabilidade com o recurso público, prefeito que é honesto não precisa de governador para fazer uma boa gestão.”
Essa postura de distanciamento e crítica aberta ao Palácio de Ondina contrasta com a realidade da saúde pública de Vitória da Conquista. Diferente de municípios de menor porte, Conquista é a centralidade do sistema de regulação do Sudoeste baiano e atua em direta consonância com estruturas estaduais de alta complexidade, como o Hospital Geral de Vitória da Conquista (HGVC) e a regulação de leitos do SUS. Gerir a saúde conquistense sem diálogo institucional ou sob a premissa da independência total em relação ao Estado representa um gargalo pragmático no atendimento da população.
O Alerta de Jerônimo Rodrigues e o Gargalo da Saúde Municipal
O cenário torna-se ainda mais delicado ao resgatar as cobranças recentes do governador Jerônimo Rodrigues sobre a gestão da saúde na cidade. Em declarações públicas, o governador criticou a carência de projetos municipais e a forte dependência que a prefeitura teria das estruturas estaduais.
Jerônimo apontou que gargalos históricos na atenção básica e na oferta de atendimentos de urgência sobrecarregavam equipamentos do Governo do Estado, como a UPA estadual. Na visão do governador, faltava à gestão municipal apresentar projetos concretos e buscar parcerias republicanas para ampliar a rede de atenção primária e a construção de novas unidades de saúde no município.
Mudança de Tom: Sheila Lemos Prega Diálogo Pós-Eleitoral
Por outro lado, a própria prefeita Sheila Lemos sinalizou recentemente a urgência de desmontar o palanque e restabelecer pontes de diálogo com o Governo da Bahia. Em entrevista concedida durante as celebrações do aniversário da cidade e a entrega de Títulos de Cidadão Conquistense, a prefeita reforçou a necessidade de encontros institucionais com o governador Jerônimo Rodrigues:
“No período eleitoral, nós estamos em cima do palanque. Passou o período eleitoral, ele é o governador da Bahia, nós vamos sim conversar sobre todas as pautas que estão pendentes do Governo do Estado junto a Vitória da Conquista.”
Ao defender a escolha de Hagge, Sheila destacou sua experiência acumulada em dois mandatos no município vizinho de Itapetinga e a proximidade geográfica entre as cidades. No entanto, a contradição salta aos olhos: no exato momento em que a prefeita reconhece a indispensabilidade de sentar à mesa com o governador para destravar demandas represadas, ela entrega o comando da pasta mais crítica a um gestor notabilizado pelo discurso de recusa à parceria estadual.
O Dilema Prático: O Que Esperar da Gestão?
A saúde pública de Vitória da Conquista enfrenta desafios imediatos: filas de espera na regulação, necessidade de expansão da rede básica e demanda contínua por investimentos em equipamentos e medicamentos.
Resta saber se Rodrigo Hagge adotará uma postura pragmática, deixando o discurso político do passado para trás em prol da construção de pontes republicanas com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), ou se a retórica de autossuficiência irá aprofundar o isolamento de Vitória da Conquista, penalizando em última instância quem mais precisa do atendimento público no município.
