Caos na UPA de Itapetinga: Médicos denunciam salários atrasados, plantões descobertos e descaso da gestão Enquanto a população enfrenta superlotação e falta de atendimento, profissionais de saúde relatam meses sem pagamento, hostilidade do setor financeiro e uma coordenação que “normaliza” a crise. Itapetinga, BA — A situação da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Itapetinga chegou a um ponto crítico. Denúncias recentes feitas por profissionais de saúde que atuam na linha de frente revelam um cenário de colapso estrutural e administrativo: salários atrasados há meses, médicos se recusando a assumir plantões, sobrecarga de trabalho e uma gestão que, em vez de solucionar o problema, trata a falta de pagamento com hostilidade e naturalidade. O colapso no atendimento Segundo o relato de um dos médicos da unidade, o atraso nos repasses — que já chega a quatro meses — tem gerado uma debandada de profissionais. Com a recusa de médicos em assumir plantões sem a garantia de recebimento, a escala fica defasada. O resultado é assustador para quem busca socorro: muitas vezes, apenas um médico fica responsável por toda a UPA. Nessas condições extremas, o atendimento é restrito apenas a casos de urgência e emergência (fichas amarela e vermelha), deixando a população desassistida. O descaso gera revolta nos pacientes, que, exaustos e doentes, acabam se tornando agressivos com os poucos profissionais que restam no prédio. A denúncia aponta ainda uma falha grave na liderança: a coordenadora médica da unidade, que recebe um salário de R$ 10.400,00, tem como uma de suas obrigações cobrir os furos na escala para que a unidade não fique desassistida. No entanto, segundo os relatos, ela se recusa a assumir os plantões, deixando os colegas sozinhos no meio do caos. A “normalização” do erro O que mais choca os profissionais, no entanto, é a postura da coordenação diante do calote. Em um áudio vazado, a coordenadora médica tenta justificar a falta de pagamento, argumentando que trabalhar meses sem receber é uma “prática padrão” no sistema de saúde. “Esse prazo que eu falei de três meses não é atraso. Você já entra no serviço (…) sabendo que vai receber três meses depois. (…) Qualquer serviço em saúde hoje de urgência e emergência você trabalha três meses para ir recebendo retroativo. Sempre, tem mais de 15 anos que é desse jeito, isso não é atraso, é prévio.” — Trecho do áudio da Coordenadora Médica. Para os médicos que dependem do salário para sustentar suas famílias, a fala da coordenadora soa como um deboche, normalizando uma irregularidade trabalhista sob a justificativa de que “todo mundo faz assim”. Hostilidade e desprezo no RH Se a coordenação médica tenta mascarar o atraso com burocracia, o setor financeiro e de Recursos Humanos da Prefeitura opta pela grosseria. A reportagem teve acesso ao relato de um episódio envolvendo um representante da Secretaria de Finanças. Ao ser questionado de forma legítima por uma médica sobre a previsão de pagamento do seu salário atrasado, a resposta do servidor público foi ríspida, autoritária e sem qualquer empatia pela profissional que prestou o serviço: “Se você está insatisfeito, então pede pra sair, eu não posso fazer nada por você não.” — Resposta do representante da Secretaria de Finanças. A conta chega para a população A postura documentada nos áudios levanta questionamentos graves sobre a administração pública de Itapetinga. Tratar a cobrança de um direito básico — o salário por um serviço prestado e vital para a sociedade — com respostas como “pede pra sair” demonstra um completo distanciamento da realidade e do respeito aos trabalhadores da saúde. Enquanto a gestão normaliza o atraso e ofende quem cobra, quem realmente paga a conta é o cidadão de Itapetinga, que chega à UPA em seu momento de maior vulnerabilidade e encontra uma unidade sucateada, sem médicos e à beira do colapso total.