Home BahiaO Paradoxo da Saúde em Itapetinga: A Promessa de ACM Neto e a Contradição de Antônio Brito

O Paradoxo da Saúde em Itapetinga: A Promessa de ACM Neto e a Contradição de Antônio Brito

por Portal Sudoeste em foco
O Paradoxo da Saúde em Itapetinga: A Promessa de ACM Neto e a Contradição de Antônio Brito

Por trás do discurso de renovação, eleitores de Itapetinga vivem a contradição de clamar por mudanças na saúde enquanto mantêm o status quo político no comando do principal hospital da cidade.
Em um vídeo recente de campanha, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, toca em uma das feridas mais abertas da população do sudoeste baiano: a saúde pública em Itapetinga. Olhando para a câmera, ele classifica como “um absurdo” o fato de moradores de uma cidade tão importante precisarem esperar meses por atendimento ou viajarem horas até Vitória da Conquista ou Salvador. A promessa é clara: a mudança da Bahia começa por mudar essa realidade. No entanto, uma análise mais profunda do cenário local revela que a solução exige muito mais do que promessas de palanque, ela esbarra em um complexo e contraditório xadrez político.
A Estrutura Local e o Peso do Hospital Cristo Redentor
Para entender o contraponto, é preciso olhar para a infraestrutura de saúde que Itapetinga possui hoje. A rede de urgência e maternidade da cidade se apoia basicamente na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e no recém-inaugurado Hospital Virgínia Hagge (focado no atendimento materno-infantil). Sendo assim, o grande pilar do atendimento médico, que deveria concentrar o maior volume de recursos e oferecer a maior qualidade à população, é o Hospital Cristo Redentor, gerido pela Fundação José Silveira.
Como a principal unidade de média e alta complexidade do município, o Hospital Cristo Redentor deveria ser a resposta local para evitar as exaustivas viagens a Conquista ou Salvador citadas por ACM Neto. Mas por que a engrenagem não funciona como deveria? A resposta, apontam críticos e observadores da política local, está na politização da saúde.
O Fator Antônio Brito e o “Cabide de Empregos”
A Fundação José Silveira possui uma forte e histórica ligação com o deputado federal Antônio Brito. Nos bastidores e na prática do dia a dia, a gestão da fundação, frequentemente associada ao controle familiar e de aliados políticos do deputado, dita os rumos do Hospital Cristo Redentor.
O problema surge quando a finalidade médica e assistencial passa a dividir espaço (ou ser engolida) pelos interesses eleitorais. A fundação é amplamente criticada por funcionar, na prática, como um grande “cabide de empregos” para garantir base de apoio político. Funcionários, prestadores de serviço e beneficiados pela estrutura da Fundação acabam formando um curral eleitoral fiel a Antônio Brito para a Câmara Federal.
A Contradição do Eleitorado: O Voto Duplo
É exatamente neste ponto que o discurso do vídeo de ACM Neto entra em rota de colisão com a realidade do eleitor. Cria-se um fenômeno eleitoral altamente contraditório em Itapetinga:

  1. O Anseio pela Mudança: O eleitor (incluindo funcionários da própria Fundação José Silveira) assiste ao vídeo de ACM Neto, concorda que a saúde local é falha, que as viagens para Conquista são desumanas, e decide votar nele para Governador, esperando que ele “conserte” o sistema.
  2. A Manutenção do Problema: Ao mesmo tempo, esse mesmo eleitor deposita o voto para deputado federal em Antônio Brito, garantindo a manutenção do grupo político que hoje controla a Fundação José Silveira e o Hospital Cristo Redentor, a exata engrenagem que não está entregando a saúde de qualidade que o cidadão precisa.
    Promessas x Prática
    A promessa de ACM Neto de transformar a saúde em Itapetinga esbarra na dura realidade do fisiologismo político. Se o principal hospital da cidade continua sendo gerido como uma máquina de fazer política e votos para um deputado federal, dificilmente uma mudança de governador, por si só, será capaz de resolver o problema estrutural do atendimento.
    Para que a mudança na saúde de Itapetinga deixe de ser apenas uma promessa de campanha bem roteirizada em vídeo, a população precisa refletir sobre a coerência de seus votos. Não há como exigir uma revolução na qualidade do atendimento hospitalar se, nas urnas, o eleitor continua validando e reconduzindo ao poder aqueles que fazem da saúde um instrumento de manobra política. A verdadeira mudança não começa apenas com quem se elege para o governo do Estado, mas com o fim do uso da saúde pública como moeda de troca.

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